Kaya n’Gan Daya – Um Tributo a Bob Marley, por Gilberto Gil

Baiano de São Salvador, Gilberto Gil apostou em uma outra brasilidade em seu aclamado tributo a Bob Marley, o disco Kaya n’Gan Daya. A abordagem “mineira” do álbum não impediu o baiano de fazer o que sempre fez, experimentar diversos ritmos e gêneros em sua música. Tomando conhecimento do extremo purismo, o reggae roots pregado pelos fãs mais fervorosos do rastaman supremo, Gil preferiu não mexer muito nos clássicos do reggae contidos neste CD, tanto na lírica quanto na musicalidade. Deu mais que certo, se pensarmos em termos de competência (o que não falta ao cantor e compositor), e sobretudo de propriedade.

Padrinho de todo o reggae brasileiro, Gil consegue driblar as amarras do fundamentalismo, e mesmo sem alterar muito os registros originais, soa como ele mesmo, e não como um “cover” de Bob Marley. O que falta ao disco no resultado final (conhecedores da obra do rei do reggae sentirão essa falta) é compensado por uma rica e suingada amostragem de timbres e levadas. A compensação também é feita pela emoção que Gil transparece por estar regravando clássicos de um de seus maiores ídolos. Os metais e a percussão afiada completam o groove. A combinação de elevada qualidade técnica e amor genuíno fazem do disco um objeto artístico que vale a pena, acima de maiores questionamentos sobre gosto pessoal.

Nem tudo ficou tão igual. A preocupação em manter o “roots” foi deixada de lado, ou talvez não tenha sido. Gil não fez cerimônias e inseriu algumas nordestinidades bem sacadas e misturadas, como em Three Little Birds — na qual a malemolência do baião se mescla à cadência do reggae, gerando um híbrido dos mais sacolejantes. Em Lick Samba, canção menos conhecida de Marley que, apesar do nome, nunca foi um samba, Gilberto Gil aproveita para revisitar o Recôncavo Baiano. Na versão de Lively Up Yourself, as frases de Bob Marley são proferidas em português: “Eleve-se Alto ao Ceú”.

Trata-se de reggae baiano, sem confusões com o samba-reggae, exaltando a Jamaica e aproximando-a do Brasil. Gil completa o disco com ‘pedradas’: Buffalo Soldier, Positive Vibration, One Drop e Time Will Tell são verdadeiras celebrações à alma de Marley.

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